quarta-feira, 9 de agosto de 2017

OLHOS E BOCAS







      Porque não há idade para a velhice, desde menino essa nuvem o assusta e essa cruz ameaça dobrar-lhe a coluna até a última vértebra.
     Porque há sempre dois olhos para denunciar e tantas bocas para te engolir.
     Desde sempre, e ainda muito novo, o peso dos anos atávicos e inexistentes.
     O pai ainda moço temia a morte, o filho tão moço incha os joelhos. E carrega nas costas o cansaço do meu avô.
     Porque não há hoje nem ontem, o amanhã é uma luz nublada a lembrar do que não foi feito.
     Porque a festa, meu filho, também dura pouco – o tempo daquele inesquecível pôr-do-sol. Mas não se esqueça dos dois olhos e das tantas bocas.


Rodada 77
Imagem: Glória 
Texto: Luís Pimentel

     

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