quarta-feira, 9 de agosto de 2017

OLHOS E BOCAS







      Porque não há idade para a velhice, desde menino essa nuvem o assusta e essa cruz ameaça dobrar-lhe a coluna até a última vértebra.
     Porque há sempre dois olhos para denunciar e tantas bocas para te engolir.
     Desde sempre, e ainda muito novo, o peso dos anos atávicos e inexistentes.
     O pai ainda moço temia a morte, o filho tão moço incha os joelhos. E carrega nas costas o cansaço do meu avô.
     Porque não há hoje nem ontem, o amanhã é uma luz nublada a lembrar do que não foi feito.
     Porque a festa, meu filho, também dura pouco – o tempo daquele inesquecível pôr-do-sol. Mas não se esqueça dos dois olhos e das tantas bocas.


Rodada 77
Imagem: Glória 
Texto: Luís Pimentel

     

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Eu precisava escrever o poema



Era primavera, mas aquela árvore já jogava em minha cara as folhas secas que caiam. 
Métrica e rima não harmonizavam com as palavras duras
 que vi sairem de minha boca
e eu precisava tanto escrever aquele poema! 
Caminhos em curva me faziam perder-me nas tangentes. 
A lógica da vida não poderia ser enquadrada no absoluto abstrato de minh'alma. 
E eu precisava tanto de escrever aquele poema!
Sem as letras certas, sem modelos e com sintaxe truncada, procurava o sol, 
onde apenas o frio da noite se oferecia. 
Ninhos vazios no alto das árvores
 já abduzidos por formigas 
e transformados em celeiros de alimento forte. 
Minhas pegadas desenhando tristes notas musicais no chão de terra batida. 
Os olhos tentando piscar em meio à tempestade de areia. 
Enfim, rodopiando, comecei a ler o que havia escrito sem que me desse conta. 
A poesia me embalava.
O poema estava pronto.

Imagem: Ângela Márcia dos santos
Texto: Maria Emilia Algebaile
Rodada 77

quinta-feira, 3 de agosto de 2017


TEMPO

sombrasombrasombra
e da sombra nasce
a dúvida que sou

fala e falta
luz e brecha
chão e salto

as memórias de cada mentira vivida
oceanos mínimos
e universos no espaço entre as sílabas

costuro sonhos sapatosgaláxias
os pulmões gritam cada um por si


sem teias nem mapas
deixo a palavra
e volto ao caos

Imagem: Carlos Brausz
Texto: Cesar Cardoso

 Rodada 77

domingo, 30 de julho de 2017

MERGULHO
















Se me jogo,
logo rogo
equilíbrio.

Se desisto,
é um misto:
dor, alívio.

Se te agarro,
parte o carro
pra bem longe.

Se me curo
é seguro,     
estou onde?


Rodada: 77
Imagem: Rudy Trindade 
Texto: André Calazans

terça-feira, 18 de julho de 2017

A Vi





A vi
Da asa vi
da divisa
do olhar.
Revisava memórias?
do mar da Bahia
ou de sua história.
Da asa vi assídua,
Dela vi duas
corcovas onde eu
ou Cristo abria os braços
Corcovados sobre dunas?
Olhando Niterói,
Eu aqui balbuciando
en-garrafa-men(t)os
Na via das janelas
do avião.

imagem: Lucia Dias
texto: Fernando Andrade
Rodada nº 77

segunda-feira, 3 de julho de 2017

roda

roda

essa gira
que seduz
em sua captura
centrípeta
e acolhe
cadenciadamente
em acordos de acordes
as tão cotidianas
lamúrias e pequenas
misérias, já encanta
como por magia
cada dureza geométrica
muda, convidando a
um embalo o que
não tem nome, animismo
bruto, essa melíflua
sonância que amalgama
agarra e congrega
mas também é
aquilo que expulsa
 a nódoa, a pústula,
centrífuga

roldana

Imagem de Magali Rios
Texto de Guilherme Preger

domingo, 2 de julho de 2017

rSvP




de noite quem ronda a cidade
onde alguma coisa envelhece?
olhares polícias e bares espiam
o desgosto de teu cinza muro
a elegância berrante de teus carrascos
tua mais completa traição
nada acontece na esquina de dias contados
cortados na paz do sumiço
oficina impossível
sorridente carnificina  
nas tuas vilas favelas jardins
o túmulo do tumulto 
de buscas inúteis
meu corpo volta pra casa abatido a tiros
desiste da tua garoa
& desbota essa cena de sangue



Rodada nº 76
Imagem: Rudy Trindade
Texto: Cesar Cardoso

domingo, 25 de junho de 2017

NA MORADA DA NOITE


Povo bruto! Arre! Nunca soube quando começou. Acho que ninguém por aqui se lembra. Quando me mudei vim fugindo e então me explicaram a regra.
— Na nossa cidade ninguém mora na mesma casa durante o dia e durante noite. Você tem de alugar dois imóveis, um para o sol e um para a lua.
Já vinha escapando, não quis contrariar. Cansei de perguntar o porquê.
— Já me contaram que foi um barão, duzentos anos atrás quem mandou. Era homem muito inteligente. Na falta de polícia ele quem mandava no vilarejo. Sabia que lugar sem gente é terra de perigo. Queria povo circulando. Daí estabeleceu: numa dada hora é uma mundarada imensa indo embora de casa e entrando em outra.
Outros preferem a versão mais repleta de sobrenatural:
—Eia, sôôô. Mexequisso não, arre. Tem coisa que num é bom mexê. No mei do dia os esprito marca as pessoa que vão desafurtuná. De noite volta pá buscá. Daí o povo se mexe que mexe que é mode os morto fica confuso.
A que eu mais gosto é a do Lourival, o dono da mercearia.
— Quem inventou essa porra foi o corno do Gumercindo. Tava cansado de levá gaia, mandou todo mundo trocá de casa pra atrapaiá o comedô da muié dele. Daí lascou, que a rapariga aprendeu a fuder de pé na hora da mudança, hahahaha.
Sei que nunca conheci quem mora durante o dia nesta casa em que durmo. Aqui eu só descanso e um outro vive a vida nas horas em que o dia me consome. O dono que nos aluga a ambos inventou uma engenhosidade bastante apropriada: diferenciou a propriedade dele das demais colocando uma escada no fundo do quintal. O anúncio do jornal dizia “troca sigilosa de moradores garantida, escada própria disponível”. Achei pitoresco. Todas as manhãs, exatamente às seis horas, já com os dentes escovados e com o queijo do café da manhã guardado na geladeira, subo os degraus, escalo o muro e ganho a cidade.
Há dois anos nada mudava nessa rotina, mas nos últimos meses meu colega de casa passou a cometer alguns lapsos. Tudo começou quando certo dia me apoiei na base de madeira da escada e senti. Era um aroma floral impregnado na umidade das fibras. Pousei nos primeiros degraus e aspirei. Aproximei o rosto do local onde as tábuas se pregavam e suguei forte. Sem sombra de dúvidas aquilo não era odor de madeira. Era perfume de gente.
Nos dias seguintes, a princípio de forma discreta, mas, depois, numa frequência que dificilmente seria obtida sem planejamento e convicção, os rastros do morador diurno passaram a se fazer mais sentidos. Logo após o perfume na escada, deparei-me com farelos. Minúsculos restos de pão torrado que ficaram nas frestas das tábuas da mesa. Era uma farinha pequena, não de quem come de boca cheia e deixa alguns pedaços cair, mas de quem rasga o pão com as mãos antes de leva-lo à boca. Farelos de mulher, como o perfume.
Quatro meses atrás, logo que cheguei em casa dei também por uma cor diferente no rejunte do piso do banheiro. Abaixei-me para olhar. Era uma gota de sangue. As cortinas que eu sempre deixava abertas para que a primeira luz da manhã invadisse a moradia passaram depois a serem fechadas, criando no chão da casa não mais aquela projeção de um quadrado intenso vindo da luz do poste da rua, mas uma suave iluminação filtrada pelas fibras do voal.
Dois dias depois achei sobre o meu (nosso) travesseiro um longo fio liso e preto, do comprimento do criado-mudo, elegantemente estendido, sem dar volta sobre si. Soube instantaneamente que aquilo não era um resquício. Era um presente.
Resolvi também deixar dos meus. O tapete da cozinha é de uma espuma fofa coberta com camurça. Quando se pisa, deixa-se a marca do sapato. Se você ficar mais de dois minutos na mesma posição cria-se um baixo relevo que tarda a desaparecer. Pousei sobre ele por meia hora, imóvel, pernas começando a fraquejar. Para proteger a coluna, mantida ereta a maior parte do tempo, me apoiava sobre a pia mas tinha a consciência de que isso reduziria o peso sobre a pegada e limitaria o alcance de minha estratégia, motivo pelo qual resistia bravamente à vontade de relaxar. Trinta minutos depois estava lá: bem definido, pesado, robusto – um pé de macho impresso no chão.
Ao chegar em casa de noite fui correndo vasculhar os cômodos. O tapete já havia voltado à sua forma original e toda a cozinha encontrava-se inalterada. No banheiro nada de novo, até mesmo a pia estava limpa e seca, sequer a água da última lavada de mãos podia me dar qualquer pista. O quarto: idêntico, assim como a sala e qualquer outra parte da casa. Tudo como antes, sem que um morador nada encontrasse do que o outro tivesse deixado. Pensei que não estivesse vendo bem e acendi todas as luzes antes de revirar a casa com uma lanterna. Uma mancha de suor, um aroma de colônia, um resto de urina no papel higiênico do lixo do banheiro: nada.
E assim foram os últimos meses de espera. Um sumiço. Nessas semanas descobri qual é o estofo do qual nascem as paixões: dúvida e ausência. Ontem paguei meu último aluguel e pedi ao proprietário que me autorizasse a permanecer aqui apenas mais uma noite. É, portanto, a derradeira vez na qual me apoio sobre esta escrivaninha. Ato arriscado e criminoso, afinal, sempre soube que tenho a letra pesada, das que deixam marcas profundas. Aqui redijo estas palavras que deixarei ao pé da escada quando me for. Atravessarei aquele muro pela última vez, pela parte de cima, que é por onde se atravessam muralhas que desejamos nunca mais nos conterem. Agora, já sem assunto, tinjo de caneta todas as sensações que me atingem. Sinto uma azia, forte demais, que me assusta com o temor do câncer de estômago. Chega-me também uma ponta de tristeza. Não tenho esperanças de que ela retornará e, ainda que o faça, não mais me encontrará para perceber sua presença e devolver-lhe aquilo que sou. A quem encontrar essa carta: isso é tudo que quero deixar – uma prova da incompletude nas possibilidades de sermos felizes. Felicidade é um sonho que acaba aqui, na borda inferior do papel.
B. C. Novembro - MMXVII


Bernardo caminhou até a escada e, antes de subir, afastou-a para esconder sob sua base a carta que acabara de proteger em um saco plástico à prova de umidade. Ao revolver a primeira camada de terra sua mão tocou em um envelope branco enterrado e com aspecto de recente.

Texto: Pedro Silva
Imagem: Ângela Marcia

terça-feira, 20 de junho de 2017

MINH'ALMA






Minh'alma voa,
tão leve e rota,
na brisa à toa.

E nesse céu
sobe sem dó
de quem ficou,
partindo só.

Minh'alma é louca,
lava-se e leva-se
ao infinito,   
e ressuscito.


Rodada: 76
Imagem: Carlos Brausz
Texto: André Calazans