domingo, 15 de outubro de 2017

AS FILAS



            São longas, as filas. E muitas. E lentas. A fila para o benefício, para o trem fantasma, para o arco e a flecha. A fila do açúcar, dos ovos, do suspiro. Na fila do amor, as pessoas torcem lenços nervosos, seguram nas mãos flores que já murcharam e odeiam os que têm água. A fila para os que querem estudar finlandês é pequena e cheia de uma esperança irrequieta. Mas ao chegar no guichê só há vagas para o telemarketing e a dieta de proteínas. Na fila da família há uma distribuição de sanduíches que ninguém come. E todos mastigam em silêncio. Na fila dos floristas, cada um deve recitar sua sentença assim que chegar na cela. Na dos hospitais,há tijolos para quase todos. A fila das barcas tem se movimentado com desenvoltura, até desembocar numa fila de barcas. A fila mais rápida é para pessoas que devem percorrer grandes filas, dias e noites, repetindo: não há vagas, não há vagas, não há vagas. Na fila dos cachorros é proibido abanar o rabo. Na dos humanos, não. – Exibam seus passaportes! – recomenda-se na fila dos cegos. Há filas sinuosas, com sono e esperança, há filas em linhas retíssimas onde a respiração é compassada, e filas circulares que acabam em si mesmas. Fale na fila somente o indispensável. E repita, repita, não é de bom tom ficar calado. Corre um boato de que a fila para a lipoaspiração está se movimentando com grande rapidez. Também dizem que a fila para recadastramento de sadomasoquistas foi dispersada. E sussurra-se que a fila das mulheres negras não foi encontrada. Mas garantem que há filas por cores, profissões, ordem alfabética dos apelidos. Filas para quem quer ir ao teatro, para quem deseja devolver queijos, para os que espirram durante a noite. Filas para desaprender a ler. E desde hoje de manhã, todos estão nas filas, com suas senhas na mão, seus documentos no bolso, seus exames num envelope pardo, seus olhares no céu.


Imagem: Márcia Magda
Texto: Cesar Cardoso
Rodada: 79

Jogo da vida





E em que fundo de poço mora a sorte,
se o brilho refletido é para todos?
Em qual fase do jogo está o logro,
onde a carta da manga faz morada?
Difícil saber onde está o azar da caminhada,
se no xadrez da vida cada Torre é uma peça
repartida.
                       (Nossa na volta e deles na ida.)



Imagem: Carlos Brausz
Texto: Luís Pimentel


sábado, 14 de outubro de 2017

O entrocamento das árvores




Grama 
teus laços 
por toda  a seiva que te colorir\ 
que teu abraço
nutram as veias do recolher o mesmo traço
mesmo tronco de velhas árvores que paulatinamente 
sobem lume às estrelas,
se abraçam  e se esforçam ao embaraço
de se fecharem corpos-espaços da fímbria\
Do gole do caule, tudo é pertencido à sombra?

Que é o elo mais desnudo de um dia de sol.

Imagem: Angela Márcia dos Santos
Texto: Fernando Andrade
Rodada 79

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

RETORNO A LUGAR NENHUM



Cheguei à cidade em dia triste.
Prenúncio do que viria a seguir
ou lamento final de uma saga de fome e intolerância?
Minha cidade menina
Apresentava-se a mim como anciã abandonada
Sem que eu tivesse tido tempo
De usufruir sua juventude de mulher alegre.
Não havia como voltar – para onde?
A vida inteira planejando o retorno
Para um lugar que só existiria
Em minha mente e em meu coração.
Minha cidade não era mais a minha cidade.
Estuprada e maltratada,
Desrespeitada e calada,
Minha cidade chorava um choro contido
De quem se conformou a prender as lágrimas e
A sufocar qualquer manifestação da alma.
Minha cidade chorava
Por eu ter deixado que tudo acontecesse
Sem mover um dedo, sem dar um passo, sem gritar um não.
Encostei a cabeça na vidraça e também chorei
Porque naquele instante entendi
Que, com minha distância e indiferença ao real,

 também fui violadora da minha cidade.

Imagem: Magali Rios
Texto: Maria emilia Algebaile
Rodada 79

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

AS BESTAS


Não me julgue antes de saber toda a história.

A foto foi verdadeira, mas todos nós, humanos, temos razões para mentir! Não fosse isso a mentira, vítima da Teoria da Evolução, teria desaparecido da História, virado fóssil social contado apenas nos livros. Um dos primeiros efeitos das redes sociais foi a supressão da mentira. E hoje vivemos exatamente a crise disso: ao apagar a chance de organizarmos o mundo em torno dela, a coletânea de todas as nossas mentiras converteu-se na pós-verdade. Antes diferenciávamos uma da outra e julgávamos a verdade como moralmente superior. Hoje tudo depende de como contamos a história. A democracia, como a verdade, são sofismos.

Ano passado eu peguei a grana da rescisão depois de ser demitida da agência e comprei novos equipamentos. A ideia era usar os contatos na publicidade e me iniciar como fotógrafa iniciante. Eu já fazia alguns cliques e, mesmo sem formação, supus que a somatória de bom gosto e de uma agenda telefônica com os nomes certos seria o suficiente. Flash novo, refletor, uma teleobjetiva com bastante luz. Confesso, o dinheiro não deu para tudo isso, precisei completar com um empréstimo dos meus pais. A realidade, entretanto, mostrou-se diferente. Onze meses depois e eu estava morando no quartinho de empregada no apê de uma amiga. Não era algo que ela alugasse, me foi cedido por um preço módico, misto de amizade e compaixão. Dormia no colchonete, usava uma arara para as roupas e compartilhávamos o banheiro e a cozinha.

Um dia me apareceu uma oportunidade aos finais de semana: fotografar corridas de amadores. O negócio era simples, mas cansativo. Acordava as cinco da manhã no domingo, escolhia um canto do circuito para ficar (geralmente pelas possibilidades de enquadramento) e esperava os corredores se debandarem por ali. Depois ia para o meu quartinho e iniciava os filtros: apagava fotos inteiras, borrões, sujeiras, imagens sem personalidade. Daí vinha a parte mais chata. “Ler” o número de cada etiqueta no peito dos corredores e separar cada foto para que os atletas depois localizassem no site aquelas em que apareciam. Tudo deveria ficar pronto antes de quarta-feira, data limite para exibição e venda. Cada vez que alguém comprava uma foto eu ganhava cinquenta centavos. Fora a grana do dia do evento: setenta e cinco reais para lanches e almoço. Era como eu tentava viver e sair do quarto de empregada da minha amiga antes que a depressão me atingisse.

Até que apareceu a foto.

Geralmente o trabalho de seleção me deixava exausta e na quarta à noite fui dormir cedo. Acordei ao meio dia e fui checar e-mails. Minha caixa de entrada registrava 77 mensagens não lidas, todas recebidas nas últimas nove horas. Na rede social havia “convites de amizade” de gente de fora do Brasil. Comecei a ficar assustada. Peguei o celular e me deparei com mais de 300 conversas. Debates, explorações e replicações da minha foto. Alguns desconhecidos se apresentavam como representantes de organizações esotéricas e pediam detalhes sobre o meu registro. O telefone tocou quatro vezes: era a polícia.

— Bom dia, procuramos pela senhora Lucia Dias.
Com trinta recém completos eu não gostava de ser chamado de “senhora”, mas achei melhor não prolongar conversa.
— Pois não?
— Aqui fala o delegado Vitorino. A senhora teria a foto em melhor definição?
— Mas qual foto?
—Sem brincadeiras, por favor, Sra. Lucia. Isso aqui tá um inferno hoje. A imprensa não te achou aí também?
Mal sabia ele que há meses eu não tinha mais um endereço onde a imprensa pudesse me achar.
— Delegado, não entendo bem...
— A foto, a senhora teria em alta resolução?
— Sr. Vitorino, acreditaria se eu dissesse não ter a mínima ideia do que está acontecendo?
Então ele me contou. Há sete meses vinham surgindo corpos próximos ou dentro da mata. No princípio animais dilacerados, muito sangue em volta e pedaços de carne ausentes. Um cão perdido fora deixado em osso puro.
— Nossa!
— Pois é. Mas o pior veio depois. Já há uns sessenta dias apareceu o primeiro humano. Foi terrível. Até agora não temos condições de identificar o corpo, estamos esperando alguém dar parte de desaparecimento na região para fazermos teste de DNA. Ficou praticamente no esqueleto, uns trapos de roupa. Não divulgamos nada por conta da histeria que poderia gerar, mas aqui na repartição não se fala em outra coisa. Se fosse lá para a zona oeste seria mais tranquilo para mim, mas parece que as bestas estão escondidas na mata logo aqui atrás.
— Bestas?
— Ah, sim, a senhora realmente não ligou a televisão hoje, correto? Pois bem: algo chamou a atenção no estudo dos corpos. Os ossos guardavam marcas de dentes, mas não era uma dentição conhecida. Comparamos com humanos, lobos, roedores de maior porte, cães e até com animais que não fazem parte dessa fauna. E para piorar: constatamos dois pares diferentes de mordidas. As bestas atacam em dupla.
— Deus!
— A senhora soube do que ocorreu no domingo?
— Não.
— Um dos corredores jamais chegou. Era um senhor de cinquenta anos, provavelmente corria sozinho, desgarrado do bando. Já na segunda-feira empreendemos uma busca na mata e encontramos exatamente o mesmo cenário de terror: litros de sangue coagulado e um banquete consumido até os ossos. O teste de DNA conferiu com o sangue da família, era mesmo o atleta. Acontece que a família é de gente poderosa e aquilo que nós vínhamos escondendo até então ganhou a mídia instantaneamente.
— E onde eu entro nisso?
— Um de seus arquivos, mais precisamente o “IMG_20170906_191424439” pode ter o primeiro registro dos animais.
Pedi um minuto e corri ao computador. Era uma foto bonita publicada unicamente para ampliar o efeito artístico do trabalho. Ao contrário das demais que geravam algum dinheiro, essa não identificava ninguém claramente. O atleta acabava de entrar no enquadramento pela direita. A velocidade do obturador fazia com que seus movimentos se convertessem em um borrão bonito, manchas de azul, verde e amarelo. A foto se completava com um galho retorcido e muito verde, certa granulação, consequência do ISO alto que selecionei para o local.
— Não vejo nada.
— No canto inferior, à esquerda.
E lá estavam: escondidas sobre os galhos, duas figuras estranhas. Na imagem em baixa resolução que publiquei era impossível identificar qualquer detalhe. Por isso abri o arquivo original e pude observar dois seres de feição assustadora e demoníaca me encarando. Fiquei sem ar na hora.
— Sra. Lucia: nós precisamos da imagem original.
— Essa que vocês viram é a original – menti.
— A senhora não tem nenhuma versão melhor?
— Não. Sou amadora, tiro fotos em arquivos menores porque meu cartão de memória não suportaria uma corrida inteira em alta definição.
— Ok, podemos ter acesso às demais fotos?
— Claro.
— Estamos seguindo para aí.

Rapidamente cuidei de salvar em um pendrive todas as imagens em alta definição e apagar o cartão de memória original. Enquanto esperava a polícia, liguei a TV e fui me informar melhor sobre o caso na internet. Várias notícias atribuíam as mortes a fontes misteriosas. Extra-terrestres, criaturas demoníacas, o anti-cristo. Isso explicou o nome das Associações místicas que me invadiram a caixa de e-mail. Os periódicos mais sérios focavam temas políticos e sociais, mais especificamente no porquê das forças policiais não terem proibido a corrida se já sabiam do acontecido. Uma revista semanal de futilidades se dedicava a explicar para a sociedade quem era a rica família Von Schonberg, vítima do último assassinato. 

No próximo toque do telefone minha vida começou a mudar:
— Lucia?
— Oi?
— Menina, é a Sara. Da Agência. Demorei horas para descobrir que você está morando com a Michelle. Por que isso?
— É a crise, Sara. Tudo que pude fazer.
— Pois é sobre isso que quero falar. Tô trabalhando pra Maio.
— Maio?
— Maio, a editora! Seguinte: se qualquer um te pedir novas fotos, por favor, não dê. Pagaremos alto pela exclusividade, ok? Quando vi seu nome nos créditos eu tive de correr muito a tempo de convencer a direção sobre o valor disso. Você aceita?
— O que exatamente?
— Todas as fotos com registros da mata. Exclusivas pra gente. Consegui aprovação prévia: R$1000,00 por cada uma.
Eu mal tive tempo de explorar os demais arquivos, não sabia o que encontraria. Sequer tinha certeza da existência de mais fotos. E já havia dito à polícia que não tinha nenhuma em alta-definição. Como poderia entregá-las à Sara?
Quando a polícia chegou os peritos avaliaram todos os computadores, até o da dona da casa, um baita constrangimento. Ele viu foto por foto na tela da câmera mesmo, depois fez uma cópia e foi embora com a equipe. A Sara me ligou assim que os policiais saíram.
— E aí?
— Sara, tenho outras aqui, mas é o seguinte: a polícia procurou e eu as escondi. Você não poderá revelar a origem.
— Ok, te resguardo no “sigilo da fonte”.
— Ah, e outra coisa: cinco pau por cada.
— Cinco!?
— Com exclusividade.
— Valem?
— Melhores do que a que você viu!
— Quando?
— Amanhã, te passo o endereço daqui. Não poderei rastrear seu pagamento. Traz o dinheiro vivo por favor.
— Quantas você tem?
— Duas mais. Bem nítidas.

Entendam: faltava pouco para que eu precisasse voltar pra casa dos meus pais. Seria o cúmulo da vergonha. Dez paus! Dez mil reais na minha mão. Não poderia recusar. Abri duas fotos com partes bem escuras na mata e montei olhos brilhantes e garras à mostra. Eles queriam feras? Pois as teriam.
A edição de domingo foi um sucesso. Todos os programas de TV repercutiram minha fotografia. Imprensa internacional, cadernos inteiros do jornal. A Sara virou uma espécie de empresária “do fotógrafo misterioso”. Só com os anúncios do site a revista recuperou rapidinho o dinheiro que me pagou. Aqueles moleques da Macedônia, os maiores empresários de fake news do planeta, fizeram uma montagem em cima da minha foto falsa e passaram a divulgar a montagem da montagem. Em pouco tempo milhares de pessoas atacaram a montagem deles (tosca e malfeita) e exibiam a veracidade da minha, ela que também nada tinha de real. Liguei para a Sara e disse que havia encontrado mais coisas nos arquivos. Mas que seria caro desta vez. Pedi R$50.000,00. Ela engasgou e me pediu um tempo. Dois dias depois chegou em casa com uma mala cheia de dinheiro. A polícia não sabia o que responder à população. Os opositores políticos do governo utilizaram o clima de desespero geral para propagar a ineficiência dos governantes e pedir sua cabeça. Ufólogos davam entrevistas na televisão, retrospectivas do chupa-cabras hispano-americano, edições sensacionalistas, teorias religiosas sobre os sinais do fim do mundo, uma nova tradução do Nostradamus.

Não ficarei me apegando ao fato do grampo ter sido legal ou ilegal. Deixo isso para o advogado que me recomendou passar uns dias no interior e não responder ninguém. Fato é que quando decidiram colocar escutas no telefone da Sara eles já sabiam que as últimas fotos eram falsas. Daí foi fácil chegar até mim. Mandaram o mesmo delegado que me interrogou no primeiro dia. Na manhã seguinte todos os canais mais prudentes aproveitaram para desmascarar a farsa em grande estilo. O castelo de cartas foi desmoronando na mesma velocidade e força com a qual se criou. Recebi ameaças e fui notificada de processos, minha vida virou um inferno.

É por isso que deixo esse registro. Para que vocês saibam o que me levou a decidir pela mentira. Mas sairei mais forte dessa crise inteira. Porque, ao contrário de todos os demais, eu ainda tenho a foto original. E numa definição que permite ampliações indubitáveis. Quando desmascararam as últimas fotos eu perdi toda a credibilidade, ainda que não tenham encontrado nenhuma prova de montagem na primeira delas. Claro! Ela era verdadeira. E quando olho para ela as vejo: duas criaturas que me gelam a alma e me induzem involuntariamente à posição fetal, último refúgio do maior dos medos. Mas não terei minha antiga vida de volta se não superar esse meu temor. Eu consegui uma vez. Conseguirei uma segunda. Saio de casa agora e retornarei na capa dos jornais, limpa, recuperada, forte e acima de todos que me ofenderam.

“Corpo encontrado na mata pode ser da fotógrafa” – Riodelândia, 04/06/2017 – Sara Oliveira e Reginaldo Silqueiros.


A polícia confirma que a principal suspeita sobre o corpo encontrado no último domingo é de que realmente pertença à fotógrafa Lucia Dias, desaparecida desde abril. A família da vítima foi chamada para a capital onde deverá colher material genético. Informações preliminares revelam que as marcas do cadáver possuem o mesmo padrão de dentição das Duas Bestas (ironicamente reveladas ao mundo pela própria Lucia Dias). O caso teve uma reviravolta nas últimas semanas. De “tema mais comentado do país” passou a “maior caso de charlatanice da imprensa nacional” quando peritos revelaram que a maior parte das fotos publicadas se tratavam de montagens. Uma entrevista coletiva foi agendada para esta tarde e a expectativa é de que finalmente apresentem dados conclusivos sobre o mistério.

Texto: Pedro Silva
Imagem: Lucia Dias
Rodada 79


terça-feira, 3 de outubro de 2017

A FALTA






Faltam-me letras e frases,
Falta-me, sobretudo, coragem.
Porque as palavras sangram,
As letras não são suficientes
E a poesia não tem limites.
Sou pouca e enquadrada,
Não me sinto indignada,
Não sofro de amor e não sonho,
Não questiono nem faço louvação.
Não posso ser poeta.
A vida é rara.
Falta-me alguma dimensão.

Texto: Maria Emilia Algebaile
Imagem: Lucia Dias
Rodada 69 Invertida

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Por que não?




     A irmã saía do banheiro de calcinha branca e toalha enrolada nos cabelos, derramando pelo corredor o cheiro inconfundível de Alfazema. A irmã ficava linda de calcinha branca.
     O irmão engolia a comida às pressas para voltar ao trabalho, depois passava assoviando “Meu carro é vermelho/Não uso espelho pra me pentear”. O irmão era engraçado, com o seu chaveiro que tinha um pneuzinho de carro e a camisa volta ao mundo de colarinho em pé.
     De cócoras no quintal, a coluna dobrada sobre a bacia de alumínio, a mãe ensaboava panos de prato e cantarolava:
    “Meu canarinho, meu beija-flor, onde andará o meu amor?/Foi-se embora e nunca mais voltou.”
    A mãe ainda era jovem, mas tinha cabelos brancos e muitas varizes.
     O cheiro da irmã, o assovio do irmão, a cantiguinha da mãe... O mundo poderia ser assim, pequenino.
     Por que não?

Rodada 78 invertida
Texto: Luís Pimentel
Imagem: Magali Rios





DESERTO



Nenhum caminho 
me sai    
desse deserto.   

Estou sozinho
sem pai
nem mãe por perto.

Vivo distante,
sem rumo,
mas me acostumo.

Nada adiante
me deixa
nenhuma queixa.                                                                                         



Rodada: 79
Imagem: Gloria Mota
Texto: André Calazans

domingo, 10 de setembro de 2017

ENCOXANDO-SE





Ele, evangélico, com desejos homoeróticos enrustidos, tesão a toda prova, bíblia sobre o braço, suado e com a moral comprimindo por fora e inflando por dentro.

Ela, ingênua, prostituta meio criança, aprendeu a ser mulher logo agora, mais por força do hábito do que por gosto.

Ele outro, suburbano, roupa velha que foi do irmão e não cabia mais, sonha em estudar logística e administração de empresas. Entrar para a Polícia Federal. Cuidar dos roubos de carga.

Ela, leitora, gosta dos livros e pensamentos, gorda como as mães. E ninguém sente tesão por mães eruditas.

E todos na porra do mesmo vagão de trem, um enganchado atrás do outro…


Texto: Pedro Silva
Imagem: Carlos Brausz
Rodada 78 Invertida